

Você me conhece, e sabe que eu não sou assim o tempo todo. Eu surto mesmo, falo mesmo, brigo mesmo. Não é por mal sabe? Mas as vezes as coisas saem do eixo, e eu me estresso. Sabe quando eu te mando uma mensagem no celular e você demora pra responder? Porra, isso me irrita pra caralho! Porque não pega o celular e me responde? Diz um: Espera ai, já respondo. Qualquer coisa! Um “To cagando”, “to mijando”. Mas me responde, porra! Eu sei que sou meio doida, meio louca. Mas você não pode negar que eu te amo, de um jeito meio sem jeito, mas eu te amo. E amo muito. Odeio você algumas vezes, mas depois te amo mais. Você não pode reclamar de mim o tempo todo. Essa minha loucura, é por sua culpa. Eu não era tão surtada até te conhecer. Você me tira do sério. Eu mal sabia cuidar de mim, agora imagina o que é pra mim, toda atrapalhada, maluca, lerda e chata, cuidar de duas pessoas. Porque cá pra nós, você é bem idiota né amor? Você é tão idiota que se apaixonou por mim. Porque cara, eu nunca se apaixonaria por mim. Às vezes, quase nunca, me olho no espelho e me sinto uma princesa. Meio assustador, porque eu to mais pra madrasta da Branca de Neve. Ai você foi e me amou, e o pior de tudo, me chama de linda, de princesa, de boneca. Ai eu não resisto e falo logo “a noiva do chucky né?”. Você me faz rir demais. Me faz te odiar também. Eu sei que já disse isso, mas eu odeio a forma que me sinto presa a você. Odeio o poder que você tem sobre mim. Você é um chato. Você podia ser menos charmoso, menos lindo, menos legal, menos carinhoso. Ai eu não te amaria tanto. Odeio essa coisa de você me ter nas mãos. Porque sei lá, dá um medinho sabe? Aquele medo de te perder. Você sabe que sou meio psicopata, sou capaz de achar até que uma mosca vai te roubar de mim. Posso até ser julgada como insegura, ou paranoica. Mas eu não posso deixar o que é meu assim, livre, sem os meus cuidados. Quem ama cuida, protege. Protege mesmo. Protege das galinhas. O que está incluído suas amigas, colegas, conhecidas. Qualquer pessoa do sexo feminino que não seja sua mãe e sua irmã. Tirando elas meu querido, se mexer contigo eu viro o bicho. Você ri quando eu falo assim, acha bonitinho meu ciúme. Não acharia tão bonito se eu tivesse a coragem de matar alguém. Mentira. Coragem eu até tenho, só não tenho é uma arma. Porque eu já disse? Eu disse né? Que você ta me deixando louca? Já! claro! E repito: Você me deixou louca, desde a primeira vez que eu te disse “oi”. É incrível isso porque eu nunca fui assim, não tinha essa sabe? Essa de cuidar dos outros. Era primeiro eu, segundo eu, e terceiro, ai sim, em terceiro eu também. Porque até conhecer você, eu era egoísta demais pra pensar em cuidar de outro alguém. Por sua culpa eu fiquei assim, meio idiota, que nem você. Meio besta quando te vejo, meio boba quando percebo seu sorriso, meio sem jeito quando você me elogia. E me disseram uma vez, que o nome disso é amor. Pois é, posso ser doida, chata, insistente, bobona. Bobona, como você diz né? “Grande, grande e boba”, posso ser tudo isso e um pouco mais. Mas de uma coisa eu tenho certeza, ninguém te ama como eu. E pelos meus cálculos, esse amor não tem data de validade. Eu posso dizer, que é muito mais que amor. É um sentimento sem fim.

Porque justamente ele? Ele era um vagabundo, ordinário. Um lindo ordinário. O jeito de andar era despojado, jogado. Era verdadeiramente um charme. Arrogante, estressado, idiota, com aquele olhar cativador, aquele sorriso de lado, que era assustadoramente perfeito. Perfeito. Mas porque ele? Não poderia ser o filho do açougueiro? Do padeiro? Do pedreiro? Mas era ele, aquele retardado, bobo e chato. Até o jeito de falar era diferente, cheio de gírias, palavrões. Palavrões até mesmo desconhecidos por ela. Porque não podia ter sido uma garota normal, e gostar de um garoto bonzinho, estudioso, bonito apenas. Sem aquele olhar tentador, aquele charme absurdo. E aquela pegada que ninguém mais tem. Arrepiou-se. Como ela podia gostar de alguém como ele? Não fazia nada pra agradar ninguém, preguiçoso, estúpido, aquele tipo que não levava desaforo pra casa. Não era o tipo dela. Arrumada, maquiada, com suas roupas de marca. Perfumada, educada, toda perfeita. Ele era um vagabundo. “Deveria ter ouvido mamãe, não fique com ele!”, discutia com si mesma em pensamento. Com raiva, levantou-se da cama. Olhou novamente para ela, não iria retirar aquilo dali. Ele colocou, ele que a tirasse. Mas quantas vezes ela teria que falar? Não podia ser ao menos organizado? Atento e menos chato? Ele não era nada disso, ele era chato, e ao mesmo tempo carinhoso, mas não deixava de ser chato. Mas ela adorava isso. Sorriu abertamente, deixou-se aprofundar os pensamentos. Lembrou-se de quando ia ao seu apê, aos finais de semana, e ao chegar estava tudo jogado pelo chão, desarrumado, não sujo, mas desarrumado. Ele era desorganizado! Riu ao lembrar-se de como ele ficava desesperado quando ela chegava derrepente e encontrava aquela bagunça toda, e ele catava tudo desesperadamente. “Agora não, tudo sou eu!” , pensou novamente, cruzando os braços. Era absurdamente desorganizado e chato. Um bico abriu-se em sua face. Mas respirou, sentou-se novamente na cama. Mas era dele o seu amor, foi com ele que viveu os momentos mais felizes de sua vida até então. Tão diferente dela, ele a completava. Era ele seu porto seguro, seu protetor, o mais chato de todos, mas era ele, quem lhe dava conselhos. “que são uma porcaria!” , pensou aceitando os fatos, para logo sorrir. Não podia reclamar tanto assim dele. Deixou de se lamentar pela estupidez do amor, ela haveria de aceitar. A gente não escolhe quem amar. Ela o amava, olhou novamente para a parte lateral da cama, levantou-se e recolheu o que tanto odiava. Todo santo dia era assim. Era aquela bendita toalha molhada sobre a cama. Sorriu. Afinal, sempre sonhou com isso. Não com a tolha molhada, mas em estar casada com ele. Dividindo o mesmo teto, o mesmo quarto, a mesma cama. Sabia que seria assim, então sorriu. Ele poderia ser o cara mais desorganizado do mundo, o mais chato, o mais besta, o mais bobo, mas era o amor da vida dela.

